5.7.08

Se tudo fosse tristeza


Ela queria saber porque Dostoiévski escrevia coisas tão tristes e melancólicas. Ora, eu não soube responder. Juliana sempre foi complicada, eu nunca consegui entendê-la muito bem. Nunca consegui entender mulher alguma. Ela entrou em meu quarto, olhou para as paredes e depois para mim, enquanto eu acendia um cigarro. Sentou-se em minha cama e perguntou-me:
- Porquê Dostoiévski escrevia coisas tão tristes? Olhei para ela e sorri enquanto pensava no que responder.
- Deve ser por causa do frio. Sempre imaginei Dostoiévski como um homem velho, de barba grande e grisalha, vivendo em um pequeno quarto com todo aquele frio. Bebendo vodca, solitário. Acho que ele só poderia escrever coisas tristes vivendo assim - respondi. Ela continuou olhando-me fixamente nos olhos.
- Você não possui poesia. Se fosse você, provavelmente escreveria sobre uma camponesa russa de peitos grandes.
- Talvez...- É! O mundo não precisa de escritores como você - disse Juliana.
Juliana estava certa, provavelmente eu escreveria sobre uma russa de peitos grandes. Se eu conhecesse alguma russa, mas não conhecia.
- Dostoiévski escrevia em um quarto frio e escuro, enchia a cara de vodca, depois colocava o seu casacão e saía pelas ruas na madrugada gelada. Perdia-se em jogos e depois voltava para o seu quarto solitário. Ele ouvia o vento assoviar em seus ouvidos e sonhava com uma bela mulher para aquecer-lhe naquelas noites geladas.
- Quem te contou isso? - perguntou Juliana com um olhar vago.
- Eu imagino que tenha sido assim.
- Você acredita que existem pessoas que nasceram para sofrer, para levar uma vida miserável e triste? Pessoas que sempre serão solitárias, por mais que desejem o contrário - perguntou Juliana.
- Acredito. Acho que sim.
- Às vezes eu quero morrer, tenho necessidade de morrer - disse Juliana.
- Besteira. Tudo ficará bem. Juliana olhou em redor do quarto, deu um belo sorriso.
- Este quarto é um chiqueiro! Está precisando de um toque feminino - afirmou Juliana sorrindo.
- É... Um toque feminino.
- Acho que somos muitos amigos - disse ela.
Juliana levantou-se, caminhou até a janela e lançou um olhar perdido para fora do apartamento. Eu tinha a impressão que Juliana era uma suicida, que um dia ela não agüentaria e acabaria terminando com a própria vida.
- Vou embora! - disse ela.
- Fica mais um pouco. Podemos conversar a noite toda se você quiser.
Juliana sorriu.
- Acho que você é um anjo. Um anjo que eu encontrei.
- disse ela com um olhar terno no rosto. O olhar mais terno que eu já tinha visto na minha vida. Vou ficar aqui esta noite. O quarto ficou iluminado apenas pela luz de um velho abajur vermelho. Entrou uma suave brisa pela janela. A noite foi passando, passando... lenta e calma, até adormecemos.

Um comentário:

Gabriele Fidalgo disse...

Olha, muito bom!